Com
a aproximação do 3º milénio começam
a exaltar-se os ânimos devido a várias dúvidas existenciais
: será o fim do Mundo, entraremos finalmente na sociedade do
futuro, irá ser o caos informático, irão os aviões
cair?!?...
Mas, actualmente, existe uma confusão bem maior: o fim do milénio
é, ou não, em 2000? Ou será em 2001, como teimam
os (pseudo-) intelectuais? Ou terá já sido em 1997, como
afirmam alguns peritos em teologia?
Porque
razão existe tanto pandemónio em volta de uma simples
data?
Tudo
começou com um monge estudante do séc. VI, Dionysius
Exiguus (port.: Dionísio Exíguo). Dionysius estava
encarregue de compilar uma tabela com as datas de Páscoa. Uma
tabela similar já cobria um período de 19 anos, denominados
228 a 247 após o começo do reinado do imperador romano
Diocleciano (Anno Diocletian). Dionysius prolongou a tabela por
um novo período de 19 anos, a que ele designou por Anno
Domini Nostri Jesu Christi 532-550 (português: Ano do
Nosso Senhor Jesus Cristo), sendo o ano de 532 de Dionysius equivalente
ao Anno Diocletian 248. Deste modo, foi criada uma correspondência
entre a era de cristã e um sistema de datação associado
a acontecimentos históricos variáveis. No entanto, à
luz dos conhecimentos a que tinha acesso na altura, Dionysius não
conseguiu estabelecer uma data exacta para o nascimento de Cristo, enganando-se
em alguns anos.
O
problema de datação em causa, nomeadamente do início
e final de um dado milénio, começa aqui: como registar
e designar datas precedentes a 1ADNJC? Bede, um historiador inglês
do séc. XVIII, decidiu designar as datas após o potencial
nascimento de Cristo por A.D.(A.D.="Anno Domini"; português:
d.C.=depois de Cristo) e as precedentes por B.C. (B.C.="Before Christ";
português: a.C.=antes de Cristo). Neste sistema, 1 d.C. é
precedido pelo ano 1 a.C. (por vezes também denominado -1), sem
alguma vez intervir o ano 0! [1]
Consequentemente, o primeiro milénio começou no ano 1
e não no ano 0, ou seja, o ano 1d.C. equivale ao ano 0
[2].
É-se, então, obrigado a retirar uma unidade à data
convencional para se obter o ano real!
Concluindo a lógica inerente, somente o ano 2001 equivale ao ano 2000, implicando que somente na transição do ano 2000 para o ano 2001 haverá passagem de milénio!!!
Existe
um sistema de datação, que todos utilizamos em História,
que emprega a mesma lógica. Quando se pretende indicar um século,
p. ex., o séc XV, este é constituido pelos anos 1401 a
1500 inclusivé (31 de Julho de 1500 ainda é séc
XV). O séc XVI só começa em 1501! Não se
percebe, então, porque teimam em alterar as regras para
este novo milénio em particular...
Por oposição de ideias,
pode-se tentar criar uma analogia ao tempo medido em segundos, em que
existe um ponto de valor nulo. Neste caso, o 1º segundo decorre
desde 0 s até 1 s, após o qual começa o 2º.
Por exemplo, 0,3 s é no primeiro segundo; 1,2 já é
no segundo.
Poder-se-ia, absurdamente, aplicar
o mesmo sentido à datação anual: 31 de Julho de
1500 faria parte do séc XVI. Mas, como é necessário
retirar uma unidade para se obter o ano real, 1500-1=1499, ainda
se trata do séc. XV!! (Isto, em Matemática, é o
que se designa por prova pelo absurdo!)
Infelizmente,
os estudiosos não se contentaram com esta resposta. Como Dionysius
não marcou a data real do nascimento de Jesus Cristo, foram feitos
vários estudos no sentido de apurar a data exacta. Como é
de supor, a principal fonte de informação é a Bíblia
(e, por vezes também, a Astronomia). Este "livro" tem, no entanto,
muitas incorrecções cronológicas. A razão
principal deste facto, é de grande parte das histórias
terem sido contadas oralmente através de várias gerações.
Quando tal sucede, a diferença temporal entre o facto histórico
e o ponto temporal em que é relatado mantém-se, erradamente,
constante por vários anos. (Um bom exemplo é o Livro do
Génesis, em que as personagens vivem centenas de anos!).
No parágrafo seguinte, tento dar
uma ideia de como é feita a análise relativamente à
época do nascimento de Jesus Cristo.
Segundo a Bíblia (Mt 2), quando
os Magos passaram por Jerusalém, foram inquiridos pelo rei Herodes
acerca do anúncio do nascimento de um novo rei judeu em Belém.
Aquele pediu aos Magos que investigassem bem o acontecimento, e que
depois o informassem. Porém, após os Magos terem encontrado
o novo rei judeu - Jesus - foram avisados em sonhos para não
voltarem pelo mesmo caminho. Assim o fizeram. Heródes, ao descobrir
esta traição cerca de 2 anos mais tarde, ordena
que sejam degoladas todas as crianças de idade inferior a esse
período.
É principalmente sobre esta estória
da vida de Jesus Cristo que incide toda a investigação.
Heródes só soube da "traição"
após os Magos terem regressado a casa. Nesta conformidade, admite-se
que a viagem de Jerusalém a Belém tenha durado cerca de
1 ano. Além disso, sabe-se que Herodes morreu em 4 a.C.; como
tal, a sua ordem de execução terá sido proferida
antes dessa data. Somando estes dois resultados, conclui-se que o nascimento
de Cristo tenha sido, no mínimo, em 5 a.C.!! Alguns teólogos,
afirmam que Cristo nasceu por volta do ano 7 a.C. (O arcebispo anglicano
James Usher afirmou, em 1650, que Cristo teria nascido a 23 de Outubro
de 4 a.C., baseando-se em indícios mais subtís de várias
narrações.)
Se nos referirmos à data do nascimento
"correcto" de Cristo, o primeiro século inicia -se, então,
a 5 a.C., finalizando a 96 d.C. - não esquecer de retirar uma
unidade! Logo, o séc.XXI começou a 1 de Janeiro de 1997!!!!
Será que já perdemos a tão esperada passagem do
milénio?!?
Após
este exaustivo esclarecimento, percebe-se muito mais facilmente a causa
desta confusão de datas que corre por aí...
Houve uma questão de fundo que
eu, propositadamente, não abordei, mas que merece a devida atenção.
Na realidade, tal como já aconteceu
com o ano 1000, o ano 2000 não é encarado como uma data
vulgar. O número 2000 sempre teve um significado bem especial,
traduzindo-se em variadíssimos campos - na sociologia, na tecnologia,
no idealismo... - não só como a passagem do milénio,
mas, também, como a passagem para uma nova era, a era do futuro.
Por isso, nada nos impede de festejar
"à grande e à francesa" na passagem de ano 99/00 (!) -
e igualmente no ano seguinte - desde que saibamos diferenciar os propósitos
para tão grandiosas celebrações... eu assim farei!!